Clube da Luta e a psicologia das massas, por Thiago Madureira
- Daniela Delias
- 16 de nov. de 2022
- 10 min de leitura
Clube da Luta é um filme americano lançado em 1999, dirigido por David Fincher, baseado no romance homônimo escrito por Chuck Palahniuk. Nosso protagonista é um homem comum, sem nome específico - de tal modo que seu personagem é intitulado “narrador” -, de classe média americana, que tem um trabalho insatisfatório e uma vida entediante baseada em gastar todo o seu salário em móveis e decorações que ele não precisa, mas o faz de forma compulsiva. Todo filme é narrado diante da sua perspectiva. Sua honestidade diante do público nos faz compreender que ele é infeliz, depressivo, que sofre de insônia (a tal ponto que fica acordado por horas a fio e, de uma hora para outra, se encontra em diferentes locais sem saber como chegou lá, funcionando numa espécie de “piloto-automático”). Diante deste mal-estar, ele busca um médico que pudesse prescrever medicamentos para conseguir dormir. Ao queixar-se sobre seu sofrimento, o médico o ironiza e recomenda que ele participe de um grupo de homens que perderam os testículos. Neste local ele se depararia com o verdadeiro sofrimento e, neste mesmo local, o filme começa para nós.

Ao visitar o grupo, o narrador se depara com a lógica normal de grupos de apoio popularizada pelos Alcoólicos Anônimos (AA), nos quais algum membro de forma voluntária se apresenta e, se assim desejar, abre-se revelando aspectos de sua vida. O narrador inventava um nome qualquer para o seu cartão de apresentação e ficava calado todo o tempo. Dizia que, desse modo, ninguém o incomodava e todos achavam que a história dele era muito triste e que não estaria pronto para contar. Num determinado momento, o coordenador do grupo pede que todos formem duplas para se abraçarem e chorarem. Bob é o seu parceiro, um homem grande, que perdeu seus testículos pelo uso abusivo de anabolizantes, o que trouxe como sequela o crescimento das mamas. Bob chora muito e, na vez do narrador, sem dizer uma única palavra, ele chora mais ainda. Sem reconhecer as razões de tantas lágrimas, o narrador se sente profundamente aliviado de tal modo que finalmente consegue dormir. Ele então torna-se viciado (dependente) em grupos de apoio, pois, sem saber necessariamente nomear seu sofrimento, sabe que naqueles espaços de escuta encontraria uma forma de liberar seu mal-estar em forma de choro.
Mais tarde, sente-se impedido de continuar participando dos grupos, retornando todo seu sofrimento psíquico. É nesse momento que ele conhece Tyler Durden. Tyler se mostra um homem interessante, fabricante de sabonetes, com ideias críticas e inusitadas diante da sociedade e de seus costumes capitalistas - tais pensamentos fazem despertar o interesse do narrador pelo novo amigo. Por razões misteriosas, após chegar de viagem, o narrador descobre que seu apartamento explodiu. Sem ter para onde ir, liga para Tyler. Os dois se encontram num bar e começam a beber. Ao sair de lá, Tyler pede que o narrador dê um soco em seu rosto, um soco real e forte. Com relutância ele desfere o golpe. Tyler devolve. Os dois se divertem com essa troca de agressões físicas e, desse modo, começa uma briga entre amigos. Uma noite divertida! Ela se repete outras vezes, seguindo a mesma lógica - beber e brigar - porém, outros homens os observam durante o combate. O que eram dois tornou-se quatro; de quatro passaram para dez; e depois tornou-se trabalhoso contar. Assim começou o Clube da Luta.
Antes de entrarmos nos aspectos relevantes da massa que se forma, é preciso fazer uma pequena análise acerca das entrelinhas que o filme apresenta. O narrador, esse homem sem nome, comum, que vive para o trabalho sem sentido e para gastar todo o seu salário em produtos que não precisa, representa o homem americano, criado a partir da ideologia do sonho americano de se tornar livre pelo emprego adquirido no país da liberdade. É angustiado, sem desejos, sem sonhos, sem relações afetivas reais, portanto, sem direção para sua libido, que se contém, se multiplica e não encontra via para aliviar-se. Além disso, há um ponto interessante na narrativa, que trata de uma “feminilização” do homem, indicada em dois sutis momentos: 1) no encontro do alívio no choro; e 2) no primeiro grupo de apoio, de homens sem testículos, e no personagem Bob, um homem enorme com enormes mamas que remetem a um estereótipo do corpo feminino. Em contrapartida, há uma profunda ausência do feminino no filme - apenas uma personagem é mulher, que assume um papel importante para a narrativa. Essa digressão se mostra profundamente importante para compreendermos o porquê tantos homens civilizados decidirem fazer parte de uma massa que funciona a partir da lógica de simplesmente se reunirem para brigarem. Compreender as motivações de um sujeito de fazer parte de uma massa significa compreender as motivações de sua existência.
Os líderes do Clube da Luta (CL) são Tyler e o narrador. Porém, o primeiro se apresenta como líder real e simbólico, enquanto o segundo assume um papel de cocriador. As regras que estruturam o grupo são poucas e bastante simples: 1) não se fala sobre o Clube da luta; 2) não se fala sobre o Clube da Luta; 3) se alguém pedir para parar, fraquejar ou demais a luta para; 4) só dois homens na luta; 5) uma luta por vez; 4) sem camisas, sem sapatos; 5) as lutas levarão o tempo que for preciso; e 6) se essa é a sua primeira noite no CL, você precisa lutar. Todas as regras são respeitadas, exceto a primeira e a segunda (que podem ser consideradas, ironicamente, as mais importantes, já que são idênticas) visto que o grupo deveria ser secreto, mas a cada encontro se apresentam mais e mais homens dispostos a participar.
Rapidamente o Clube da Luta se torna a razão de existir do narrador. Não porque ele voltou a dormir bem, mas porque encontrou sentido na vida. Ele nos revela como depois das lutas as questões cotidianas perdiam importância: tornara-se desleixado no trabalho, na aparência (vestindo qualquer roupa e com o rosto cheio de ferimentos e hematomas). A personagem chega a dizer que “depois de brigar, tudo na sua vida parece estar com o volume mais baixo. Você consegue lidar com tudo”. O grupo exercia um efeito terapêutico nos seus integrantes. Afirmações como “era ali que você se sentia mais vivo”, “quem você era no Clube da Luta era diferente para o resto do mundo” e “O cara que ia pela primeira vez no CL era fraco como gelatina; após algumas semanas, ele era esculpido em mármore”. Indo um pouco mais além, o narrador nos conta que os gritos dos homens eram como um idioma - como falar em línguas em igrejas pentecostais - e que, depois de cada luta, nada importava, porque se sentiam salvos. É fácil perceber aqui o caráter transformador que a massa implica nos seus indivíduos - transformador de tal maneira que se torna religiosa.
Freud (1921/2011), ao se referir à psicologia das massas, nos introduz o pensamento de Gustave Le Bon, um dos mais importantes intelectuais no tema. Segundo Le Bom (1991 como citado em Freud, 1921/2011), as características pessoais dos indivíduos desaparecem quando envolvidos no coração de uma massa e o que surge, no seu lugar, são aspectos inconscientes - marcados pela expressão de impulsos instintivos antes reprimidos (atualização freudiana). Outro aspecto importante é que a massa faz com que seus membros possuam o que Le Bon chama de alma coletiva, que faz com que eles sintam, pensem e ajam de forma distinta do que fariam quando separados; dentro do grupo os indivíduos formam um organismo com novas características devido ao contágio que faz com que o interesse coletivo se torne maior que o individual (Le Bon, 1991, como citado por Freud, 1921/2011). Desse modo, fica mais fácil compreender dois pontos: 1) o fato de os integrantes do CL lutarem violentamente durante a noite e seguirem suas vidas comuns durante o dia; e 2) o porquê de o narrador ficar tão obcecado e se sentir de uma maneira tão diferente da qual ele se sentia no início do filme.
Agora entramos em um dos aspectos mais importantes para a compreensão da psicologia das massas: o líder. Mas quem é o líder no Clube da Luta? Quem é Tyler Durden? A resposta: Tyler é o narrador. Poderíamos definir o protagonista como psicótico ou esquizofrênico, mas isso seria irrelevante; o importante é compreender que Tyler é fruto da imaginação do narrador e que, toda vez que Tyler falava ou fazia algo, quem fazia na verdade era o protagonista do filme. Mas essa criação não é feita ao acaso, ela é originada da insatisfação dele com a sua vida, com a lógica capitalista de consumo. Tyler é fruto do inconsciente do narrador e, sendo o narrador um personagem “coletivo”, Tyler representa o Ideal de Eu de toda a massa.
O ponto de virada do comportamento da massa no filme se dá após um discurso de Tyler (Fincher, 2009):
Cara, vejo no Clube da Luta os homens mais fortes e espertos que já viveram. Vejo todo esse potencial. E o vejo desperdiçado. [...] A publicidade nos faz desejar carros e roupas, trabalhar em empregos que odiamos, para comprar coisas que não precisamos. Somos os filhos do meio da História, cara. Sem propósito ou lugar. Não tivemos uma grande guerra, ou uma grande depressão - nossa grande guerra é a espiritual, nossa maior depressão é a vida.
Depois dessa fala, o Clube da Luta deixa de ser um compromisso violento noturno e passa a ser um grupo anticapitalista muito bem-organizado. Tyler começa a passar diferentes tarefas para cada indivíduo, para que eles façam durante a semana e, ao voltarem, recebem novas tarefas. Todos os membros cumprem as ordens do líder sem questionar nem pestanejar.
Segundo Freud (1921/2011), a massa está sempre sujeita ao poder das palavras, de modo que os membros respeitam o discurso do mestre a ponto de não ouvirem mais a razão, argumentos perdem o sentido. A fascinação de Tyler pelas suas próprias crenças faz com que todos os membros da massa o obedeçam. Ainda segundo Freud (1921/2011):
A condição para que se forme uma massa, a partir dos membros casualmente juntados de uma multidão, é que esses indivíduos tenham algo em comum, um interesse partilhado num objeto, uma orientação afetiva semelhante em determinada situação e (eu acrescentaria: em consequência) um certo grau de capacidade de influenciar uns aos outros. [...] O mais notável e também mais importante fenômeno da formação da massa é o aumento da afetividade provocado no indivíduo. Pode-se dizer, segundo McDougall, que dificilmente os afetos dos homens se elevam, em outras condições, à altura que atingem numa massa, e é mesmo uma sensação prazerosa, para seus membros, entregar-se tão abertamente às suas paixões e fundir-se na massa, perdendo o sentimento da delimitação individual (pp. 34-35).
Antes, a massa se formara pelo desejo de extravasar os impulsos inconscientes que se acumulavam naqueles corpos, sempre guiados pelo líder Tyler. Agora, a massa possuía um ideal a buscar, uma nova razão para viver e um elo que ligava, ainda mais estreitamente, todos os membros. Um grupo que brigava em um porão se tornou um exército que queria acabar com o sistema capitalista. Se no início do Clube da Luta era possível perceber a incapacidade crítica dos membros dele, agora esse fator assumia outra dimensão, todos os seus membros se tornaram criminosos diante da influência mágica do líder. Freud (1921/2011) nos revela que:
É lícito dizer que as fartas ligações afetivas que vemos na massa bastam inteiramente para explicar uma de suas características, a falta de autonomia e de iniciativa de cada indivíduo, a similitude entre a sua reação e a de todos os demais, seu rebaixamento a indivíduo de massa, por assim dizer. Mas, se a olharmos como um todo, a massa revela mais do que isso; o enfraquecimento da aptidão intelectual, a desinibição da afetividade, a incapacidade de moderação e adiamento, a tendência a ultrapassar todas as barreiras na expressão de sentimentos e a descarregá-los inteiramente na ação - esses e outros traços semelhantes, que Le Bon descreveu de modo tão convincente, fornecem um quadro inequívoco de regressão da atividade anímica a um estágio anterior, que não nos surpreendemos de encontrar nos selvagens e nas crianças. Tal regressão é encontrada particularmente nas massas comuns [...]. Temos assim a impressão de um estado em que o impulso afetivo e o ato intelectual pessoal do indivíduo são muito fracos para impor-se por si, tendo que esperar fortalecimento através da repetição uniforme por parte dos outros. Somos lembrados de como esses fenômenos de dependência fazem parte da constituição normal da sociedade humana, de quão pouca originalidade e coragem pessoal nela se encontram, do quanto cada indivíduo é governado pelas atitudes de uma alma da massa, que se manifestam como particularidades raciais, preconceitos de classe, opinião pública etc. A influência da sugestão torna-se um enigma ainda maior quando concedemos que é exercida não só pelo líder, mas também por cada indivíduo, um sobre o outro, e nos recriminamos por haver destacado de maneira unilateral a relação com o líder, menosprezando indevidamente o fator da sugestão mútua (pp. 77-78).
O único indivíduo do Clube da Luta que questiona os caminhos que ele começa a tomar é o narrador, ao perceber que limites sociais estão sendo violados, que aquilo está perdendo o controle. Porém, as palavras do narrador na condição líder são ineficientes comparadas às suas palavras quando transformado em Tyler (demorou para que o narrador percebesse que ele e Tyler eram a mesma pessoa). O fascínio que Tyler desperta nos membros do Clube da Luta é tamanho que, quando o Projeto Destruição (projeto de acabar com o sistema capitalista) começa Tyler orienta os membros para que o matem quando, em determinado momento, na forma original, ou seja, como narrador, decide boicotar todo o projeto e revelar às autoridades locais. Os membros do grupo que ouvem o narrador tinham sido previamente avisados por Tyler, eles então obedecem ao líder e tentam matá-lo - sem questionamento.
Tomar conhecimento dos eixos orientadores das massas psicológicas se mostra uma forma de descobrir as lógicas que orientam o homem, visto que ele sempre foi e sempre será um sujeito coletivo, membro de grupos pequenos e grandes. Esse filme se mostra bastante atual ao encarar o cenário brasileiro e, também, o estadunidense, polarizados e com massas coletivas que apresentam líderes capazes de guiá-las para qualquer caminho. Se mostra fácil perceber a expressão de impulsos violentos, a capacidade acrítica dos indivíduos e o afeto que os membros apresentam entre si e para com o líder - vale também comentar sobre os afetos negativos direcionados para todos aqueles que não se fazem parte da massa (característica não apresentada no filme). Para concluir, vale a pena destacar que este texto não pretende encerrar a discussão acerca da psicologia das massas, mas sim abrir um caminho para desbravar esse aspecto anacrônico da humanidade.
REFERÊNCIAS:
Fincher, D. (Diretor). (1999). Fight Club. [Filme]. Regency Enterprises; Century Fox
Freud, S. (2011). Psicologia das Massas e Análise do Eu. In S. Freud, Obras completas (Vol. 15, pp. 14-113). São Paulo: Companhia das Letras. (Obra original publicada em 1921)
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Thiago Madureira é Estudante de Psicologia pela FURG, amante da psicanálise e de todas as formas de expressões artísticas, buscando sempre desaprender, nascido e criado em Pelotas/RS
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