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O vestido, um conto de Rodrigo Moraes de Miranda



Em um lugar oculto da nossa realidade, havia uma escola para onde todos os letrados se dirigiam em dado momento da vida. Mas não era uma instituição vazia, cujo objetivo limitava-se a preparar alunos a vestibulares, como as que vemos por aí. Essa, não. Essa era mágica. Lá, os alunos aprendiam a modelar a realidade através das palavras. Certa vez, o professor falou da transfiguração de objetos.

- Usamos palavras ao contrário para despir o véu da realidade e preencher o alvo com uma nova essência. Para isso, vocês precisam expor o objeto às suas mentes e enxergar possibilidades de associação. Vou mostrar com este boneco de pano. Prestem atenção: três, dois, um, larahlim.

Luz e sombra estalaram como lenha na fogueira. Uma energia espiral colorida surgiu de dentro do boneco de pano, descosturando as trouxas e os botões. Cada fibra do pano engomou-se, assumindo a grossura de um cipó e aumentando a malha de tamanho. O enchimento de algodão escureceu e tornou-se palha, que tomou o lugar dos órgãos do que agora parecia um grande corpo. Quando o último movimento aconteceu, todos os olhos notaram que, no lugar do boneco de pano, havia um enorme espantalho.

- Quando eu era criança, trabalhei na fazenda do meu avô. No campo de milho, havia um espantalho que me assustava mais que aos pássaros que vinham se aproveitar da colheita. Eu superei essa fase da minha vida após reconhecer o sentido de cada experiência dali. Todas as coisas me remetem ao milharal. Pela minha vida, minha sobrevivência, meu sustento… Tudo graças a ele. Isso me transformou e por isso posso realizar esta magia. Quanto maior o valor da palavra, mais forte é o feitiço. Alguma dúvida?

Um aluno levantou a mão.

- Qualquer palavra?

O professor esboçou um sorriso orgulhoso.

- Na verdade, depende! Precisa encontrar algo que te inspire. Ao olhar para o boneco, por exemplo, o pano e o formato me lembraram do espantalho. É assim que se faz para que a criatividade trabalhe ao seu favor, senão a magia falha ou dura pouco. Um experimento, que tal? Algum voluntário?

Aquele mesmo aluno não levantou a mão. Mas outro, sim, e, na frente da turma, o aluno procedeu:

- Oditsev!

O espantalho recolheu-se, com os membros aglutinando-se em pedaços maciços de um material visivelmente diferente. Conforme os efeitos da magia trabalhavam na forma e nas cores do alvo, os aspectos anteriores ficavam cada vez mais distantes, exceto pela principal semelhança que mantinha as duas conectadas: as hastes de apoio.

O professor observou o trabalho do rapaz.

- Muito bem! Um manequim. Não me conte seu motivo ainda. Vamos testar a força dos nossos valores, está bem? Em um duelo, repetimos os feitiços. O vencedor é quem tem o maior potencial de transformação da realidade e gera o efeito final. Três, dois, um, larahlim! (Oditsev!)

Ouviram trovejar na sala de aula. O ar virou um vendaval em volta do objeto, que já brilhava como um raio ininterrupto. A realidade rasgou como a tempestade que arrebata a serenidade de um céu azul. O conflito, porém, logo cessou: o manequim permanecia suspenso sobre o tripé de metal, mostrando um simples vestido azul.

- Você quer nos contar a história do seu feitiço, rapaz?

- Eu olhei para as hastes que seguravam o espantalho no lugar e lembrei da vez em que trabalhei numa loja de roupas no centro, perto do Natal, onde minha função era vestir um manequim com a tendência da semana. Eu me lembro que este vestido custava vinte por cento do meu salário e, mesmo que o preço fosse alto, era a peça que mais tinha saído naquela semana. Na véspera de Natal, saí do trabalho e fiz um trajeto diferente do usual, já que a principal estava lotada. No caminho, eu vi uma família. Era muitíssimo parecida com a minha, exceto pelo forro de pano e papelão no lugar de um teto, pela comida que pegavam do lixo e pela roupa que não protegia do frio. Uma mulher lamentava a morte do moço em seu colo enquanto, ao lado dela, duas crianças se queixavam da fome. Pode ter sentido medo na infância com o espantalho, até que pôde compreendê-lo e torná-lo parte da sua história. Mas eu vou sempre me envergonhar de trazer para dentro de casa apenas o que a moda faz.


...


Rodrigo Moraes de Miranda é graduando em Psicologia na FURG, feliz integrante do PET Psicologia FURG, do NUPPADES (FURG), do NUVYLA (UFRJ) e da Tradição Helênica Telestérion de Olimpia. Nascido no Rio de Janeiro, é apaixonado pela arte do viver e movido pelo implacável desejo de dar à luz a pensamentos.




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