Ondas, um poema de Andrew Oliveira
- Daniela Delias
- 18 de nov. de 2022
- 4 min de leitura

Imagem: https://pin.it/vyWct2C
Tenho tido sonhos,
resquícios de alucinação,
até mesmo o desejo inconsciente
disso ser delírio a ter para consigo,
algumas mentiras lavam meu corpo,
sinto o gozo do andar penoso
partilhado por nós
seres que tocam o sensível
sem jamais constatar
os fantasmas que somos.
A maresia dedilhando a pele
e por algum lapso lhe tenho
tato inconfundível, tanta intimidade e os
olhos cansados deitados no horizonte
procurando silhueta anômola,
o som do mundo a rebenta.
Encoberta pelo grasno aéreo
canta ao voar, não como anjos —
nada nesse mundo se assemelha,
mas eu encontrei paraíso nessas terras,
parte dele estava em você
quando éramos uma mesma carne
Mas —
O verão é uma promessa,
a cidade se dilapida diante do sol
tentado ser melhor do que é capaz,
temos construído ruínas,
as quais não devem ser nomeadas,
mas as declaramos, na esperança
de encontrar nelas
o que nos falta.
Você escolheu as ondas,
deixou que elas te levassem
até o centro de infinita profundeza
Você escolheu as ondas,
pois as vozes ressoavam desmedidas
deixando-lhe colérica, brutalizada
Você escolheu as ondas,
enquanto elas rebentavam aos seus pés
e tudo o que você desejava era ser trucidada
Você escolheu as ondas,
discernindo se terra e água não eram o mesmo
ao viver-se em vida a morte a longo prazo
Você escolheu as ondas,
sabendo ser aberrante tal veredas
sobre elas a decadência do desejo.
Mas as ondas são assim,
seduzem, sem precisar encostar o lóbulo da orelha
não é necessário estar tempestuoso
a tormenta está em nossos âmagos
perturbando o passo das ondas
e elas existindo
já é motivo suficiente para querer fazer parte delas.
Indolor ou não,
fui consolado pela raiva,
impeto de uma geração
a procura da própria aniquilação.
As ondas dizem amar os homens
e sempre que as olho, entendo a complexidade
de te ter no coração, pulsando para toda minha carne,
te tenho na pele, te tenho nas vísceras,
te tenho nos músculos, te tenho nas veias,
até mesmo nos cabelos,
te tenho em meus ossos, e sei o que é saudade.
Veritas lux mea
até que a Mãe
me conduza
para o oceano.
Quimera de olhos azuis
ruína submersa dos ascetas
dizimou a candura
deixando o sadismo às margens do fracasso.
Inquietação não vagamente particular
a impotência de nada poder fazer abarca todos
para o encargo de nossos leitos derruídos.
Estou tantalizando minha vida
pois éramos seres messiânicos
e diante do apocalipse
o que restará foi muito árduo e indócil,
eles ainda cultivam seus prazeres
frutificando mundo a fora os impérios
e deles nada consigo consumir
não tenho fome pela vida.
O amparo foi-se junto da inclemência,
os homens desaprenderam a respeitar
a complexidade do lúgubre e do ermo
agora sou soturno, como as profundezas que te cercam.
As vezes o espaço tempo parece um iambo
opulência antidelimitável, vergonha sacra
o umbral da primavera pseudo-episcopal
dos seres amorfos perdidos no subterrâneo.
Antes era como prometeu,
prometendo a chama primitiva
para que o mundo deslumbrasse a beleza
de todas as arcádias e bosques,
mas o que restou foram as feras feridas
quando o mundo inundou
e o deixou no escuro
ecoando em incompreensão.
Talvez eu seja esse tipo de garoto
que acredita poder mudar o final
então lave essa alma
então leve essa alma.
Eu não gosto do que você realmente se tornou
talvez seja por isso que eu implore à grande Mãe
“traga ela de volta”, os cabelos ondulando ao ritmo das embarcações
jamais será como Vênus ao nascer
nem mesmo como Argo em busca de tesouro,
o qual nunca será desvendado através dos mistérios
de pessoas que se encaminham para o sol
a procura de matéria emudeçadora
das diversas vozes na cabeça.
De longe era um presságio,
nem sequer uma tragédia.
Apenas uma silhueta em fuga,
espectadora de Möbius,
conseguiríamos com isso resgatar meia vida
percorrendo destinos análogos?
Surgem alteridades errantes,
movimentos insurgentes no âmago da depravação humana
espectros fracionados de estados dicotômicos
numa racionalidade de cacofonia abstrata.
Era nossa passagem de fuga para além desse labirinto,
mas você sempre gostou de enigmas
roubando nossa promessa, foi-se por conta própria
deixando-me a liberdade de escolher a guerra ou a morte.
Então irei datilografar nossas reminiscências
como um operário exausto dos mesmos atos
encontrarei minha liberdade através dessa divagação.
Uma vida que se encerra nas sentenças
conduzindo ao encontro de palavra ligeira
com apenas um significado final: verdade.
Mas eu serei oceano inteiro
mesmo que só para encontrar
vestígio de alma sua
absorta do próprio nome.
E quando eu gritar
será para você se aperceber
que mesmo reduzida ao tártaro
você pode voltar para casa.
Minhas ânsias suas ondas.
Meus sonhos suas ondas.
Minha vida suas ondas.
Meu amor suas ondas.
Talvez eu seja esse tipo de garoto
que acredita em finais felizes
então lave essa alma
então leve essa alma.
Amanhã talvez eu contemple
as nuvens íntimas das ondas
passeando com gentileza
sobre a superfície acalmada do Mar Morto.
Somos filhos d’água
por entre nossos braços as suas gotas
tracejando nossos riachos de violência
feitos para verterem a tempo certo
o sangue pertencente da terra
nossa última oferenda
nosso último sacrifício
nosso último verão
nosso último adeus.
Esse não é o fim, apenas o começo
de pesar antes insuperável, depois lícito
jamais dispersado.
Os rios continuarão a mudar suas águas
não serei como Heráclito, mas sim como Narciso
para o sempre preso ao reflexo das margens
de lago que o engoliu no preâmbulo da juventude
em sentimento sem frêmito.
Eu não pude te salvar.
Talvez fosse para ser assim
a dor é condição para vida
não imaginava que em demasia,
mas sei que posso suportar
mesmo diante da sua ausência
ofereço essa chama a espuma da praia
talvez dali surja a descoberta do mundo
uma beleza borbulhante
uma beleza efervescente
uma beleza para se lembrar.
Errantes,
tínhamos um prenome em comum
para sabermos que compartilhávamos o mesmo purgatório
alinhados pela assombração de sermos demasiadamente ordinários
parte da história, parte da memória,
tempo de novas ondas.
Seja livre pelos pecadores
livre pelos sonhadores
livre pelos apaixonados.
Banhando os pés na beira
escolhi por ficar na terra,
memento mori.
...
Andrew Oliveira é natural da própria condição humana e pertence ao tempo. Atualmente, é estudante de Psicologia na FURG, participante do LEXPARTE (2021 - atualmente) e do NUPPADES. Ama a literatura e crê que a linguagem é o caminho para humanizar o outro e a si. Além disso, é aspirante a escritor e a poeta, deixando-se se perder nas infinitas tonalidades de azul no céu. Mesmo antes de entrar na Psicologia já sabia que a Psicanálise seria o seu meio para contar essa história.
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