top of page

Ondas, um poema de Andrew Oliveira


Imagem: https://pin.it/vyWct2C


Tenho tido sonhos,

resquícios de alucinação,

até mesmo o desejo inconsciente

disso ser delírio a ter para consigo,

algumas mentiras lavam meu corpo,

sinto o gozo do andar penoso

partilhado por nós

seres que tocam o sensível

sem jamais constatar

os fantasmas que somos.


A maresia dedilhando a pele

e por algum lapso lhe tenho

tato inconfundível, tanta intimidade e os

olhos cansados deitados no horizonte

procurando silhueta anômola,

o som do mundo a rebenta.

Encoberta pelo grasno aéreo

canta ao voar, não como anjos —

nada nesse mundo se assemelha,

mas eu encontrei paraíso nessas terras,

parte dele estava em você

quando éramos uma mesma carne

Mas —


O verão é uma promessa,

a cidade se dilapida diante do sol

tentado ser melhor do que é capaz,

temos construído ruínas,

as quais não devem ser nomeadas,

mas as declaramos, na esperança

de encontrar nelas

o que nos falta.


Você escolheu as ondas,

deixou que elas te levassem

até o centro de infinita profundeza


Você escolheu as ondas,

pois as vozes ressoavam desmedidas

deixando-lhe colérica, brutalizada


Você escolheu as ondas,

enquanto elas rebentavam aos seus pés

e tudo o que você desejava era ser trucidada


Você escolheu as ondas,

discernindo se terra e água não eram o mesmo

ao viver-se em vida a morte a longo prazo


Você escolheu as ondas,

sabendo ser aberrante tal veredas

sobre elas a decadência do desejo.


Mas as ondas são assim,

seduzem, sem precisar encostar o lóbulo da orelha

não é necessário estar tempestuoso

a tormenta está em nossos âmagos

perturbando o passo das ondas

e elas existindo

já é motivo suficiente para querer fazer parte delas.


Indolor ou não,

fui consolado pela raiva,

impeto de uma geração

a procura da própria aniquilação.


As ondas dizem amar os homens

e sempre que as olho, entendo a complexidade

de te ter no coração, pulsando para toda minha carne,

te tenho na pele, te tenho nas vísceras,

te tenho nos músculos, te tenho nas veias,

até mesmo nos cabelos,

te tenho em meus ossos, e sei o que é saudade.


Veritas lux mea

até que a Mãe

me conduza

para o oceano.


Quimera de olhos azuis

ruína submersa dos ascetas

dizimou a candura

deixando o sadismo às margens do fracasso.

Inquietação não vagamente particular

a impotência de nada poder fazer abarca todos

para o encargo de nossos leitos derruídos.


Estou tantalizando minha vida

pois éramos seres messiânicos

e diante do apocalipse

o que restará foi muito árduo e indócil,

eles ainda cultivam seus prazeres

frutificando mundo a fora os impérios

e deles nada consigo consumir

não tenho fome pela vida.

O amparo foi-se junto da inclemência,

os homens desaprenderam a respeitar

a complexidade do lúgubre e do ermo

agora sou soturno, como as profundezas que te cercam.


As vezes o espaço tempo parece um iambo

opulência antidelimitável, vergonha sacra

o umbral da primavera pseudo-episcopal

dos seres amorfos perdidos no subterrâneo.


Antes era como prometeu,

prometendo a chama primitiva

para que o mundo deslumbrasse a beleza

de todas as arcádias e bosques,

mas o que restou foram as feras feridas

quando o mundo inundou

e o deixou no escuro

ecoando em incompreensão.


Talvez eu seja esse tipo de garoto

que acredita poder mudar o final

então lave essa alma

então leve essa alma.


Eu não gosto do que você realmente se tornou

talvez seja por isso que eu implore à grande Mãe

“traga ela de volta”, os cabelos ondulando ao ritmo das embarcações

jamais será como Vênus ao nascer

nem mesmo como Argo em busca de tesouro,

o qual nunca será desvendado através dos mistérios

de pessoas que se encaminham para o sol

a procura de matéria emudeçadora

das diversas vozes na cabeça.


De longe era um presságio,

nem sequer uma tragédia.

Apenas uma silhueta em fuga,

espectadora de Möbius,

conseguiríamos com isso resgatar meia vida

percorrendo destinos análogos?


Surgem alteridades errantes,

movimentos insurgentes no âmago da depravação humana

espectros fracionados de estados dicotômicos

numa racionalidade de cacofonia abstrata.


Era nossa passagem de fuga para além desse labirinto,

mas você sempre gostou de enigmas

roubando nossa promessa, foi-se por conta própria

deixando-me a liberdade de escolher a guerra ou a morte.


Então irei datilografar nossas reminiscências

como um operário exausto dos mesmos atos

encontrarei minha liberdade através dessa divagação.

Uma vida que se encerra nas sentenças

conduzindo ao encontro de palavra ligeira

com apenas um significado final: verdade.


Mas eu serei oceano inteiro

mesmo que só para encontrar

vestígio de alma sua

absorta do próprio nome.

E quando eu gritar

será para você se aperceber

que mesmo reduzida ao tártaro

você pode voltar para casa.


Minhas ânsias suas ondas.

Meus sonhos suas ondas.

Minha vida suas ondas.

Meu amor suas ondas.


Talvez eu seja esse tipo de garoto

que acredita em finais felizes

então lave essa alma

então leve essa alma.


Amanhã talvez eu contemple

as nuvens íntimas das ondas

passeando com gentileza

sobre a superfície acalmada do Mar Morto.


Somos filhos d’água

por entre nossos braços as suas gotas

tracejando nossos riachos de violência

feitos para verterem a tempo certo

o sangue pertencente da terra

nossa última oferenda

nosso último sacrifício

nosso último verão

nosso último adeus.


Esse não é o fim, apenas o começo

de pesar antes insuperável, depois lícito

jamais dispersado.

Os rios continuarão a mudar suas águas

não serei como Heráclito, mas sim como Narciso

para o sempre preso ao reflexo das margens

de lago que o engoliu no preâmbulo da juventude

em sentimento sem frêmito.


Eu não pude te salvar.

Talvez fosse para ser assim

a dor é condição para vida

não imaginava que em demasia,

mas sei que posso suportar

mesmo diante da sua ausência

ofereço essa chama a espuma da praia

talvez dali surja a descoberta do mundo

uma beleza borbulhante

uma beleza efervescente

uma beleza para se lembrar.


Errantes,

tínhamos um prenome em comum

para sabermos que compartilhávamos o mesmo purgatório

alinhados pela assombração de sermos demasiadamente ordinários

parte da história, parte da memória,

tempo de novas ondas.


Seja livre pelos pecadores

livre pelos sonhadores

livre pelos apaixonados.


Banhando os pés na beira

escolhi por ficar na terra,

memento mori.


...


Andrew Oliveira é natural da própria condição humana e pertence ao tempo. Atualmente, é estudante de Psicologia na FURG, participante do LEXPARTE (2021 - atualmente) e do NUPPADES. Ama a literatura e crê que a linguagem é o caminho para humanizar o outro e a si. Além disso, é aspirante a escritor e a poeta, deixando-se se perder nas infinitas tonalidades de azul no céu. Mesmo antes de entrar na Psicologia já sabia que a Psicanálise seria o seu meio para contar essa história.

Bình luận


© 2022 por NUPPADES/FURG

  • Facebook ícone social
  • Instagram
bottom of page